terça-feira, 1 de dezembro de 2009

NY 77 – The Coolest Year In Hell (SP 2010...)


Cool: essa é uma palavra cuja banalização trouxe a reboque seu desuso em território brasileiro.

Quando vemos algum acontecimento legal pensamos na expressão cool, mas falamos “legal” (publicitários, após uma longa preleção, concluem com “isso é do caralho”) para não corrermos o risco de soarmos ridículos.

“Cool” não é uma mera tradução de “legal”. A expressão de língua inglesa possui uma forte herança da cultura norte-americana e germânica. Não existe nenhuma palavra equivalente no rico patoá português.
Em quatro letras, traduz-se um estilo, um comportamento e uma atitude, embora a palavra formada continue sendo bastante subjetiva.

Tudo isso para afirmar que o documentário NY 77 – The Coolest Year In Hell, produzido pelo VH1 e transmitido pelo canal VH1, encaixa-se perfeitamente na definição do cool.

O tema é auto-explicativo, mas a premissa (out of chaos comes creation), a narrativa frenética e o relato apaixonado das testemunhas oculares deste momento único tornam este documentário uma experiência vibrante, como se você realmente estivesse vivendo aquele zeitgeist.

O ápice da decadência de NY - marcado pelo blecaute de 25 horas (em pleno verão nova-iorquino) e por David Berkowitz, mais conhecido como Filho de Sam, serial killer que aterrorizou a cidade entre 1976 e 1977 - é o cenário utilizado para apresentar o início e o auge de diversos movimentos musicais e artísticos responsáveis por pautar muitas das coisas que consideramos cool no dias de hoje (do grafite à disco music, passando pelo indie e punk rock).

(In)felizmente, a ordenação do caos, culminada pela tolerância zero de Rudy Giuliani, deixou muitos nova-iorquinos órfãos de uma vida noturna ativa. A efervescência e a espontaneidade dos movimentos sócio-culturais deram lugar ao conforto e a segurança. A cidade ficou habitada por “gossip girls” e “sex and the cities”.

Porém, a semente da criatividade foi plantada e a prova disso são as constantes críticas musicais à Giuliani, dentre as quais pode-se citar a épica Me And Giuliani Down By The School Yard do !!! (uma irreverente “adaptação” de Me and Julio Down by the Schoolyard de Paul Simon) e New York, I Love You But You're Bringing Me Down do LCD Soundsystem.





Se você mora em São Paulo e não agüenta mais essa cidade, clique aqui (sem legenda), veja o filme e reveja sua relação de amor e ódio por essa megalópole. Se ainda não somos, seremos o epicentro cultural do mundo (se o Kassab e o Serra pararem de atrapalhar).

Eu estou disposto a abrir mão da falta de qualidade de vida que só Sampa pode oferecer para ser um observador em primeira mão deste zeitgeist (o produtor do John Lennon não só concorda comigo, como saiu de NY para vir morar aqui. Portanto, não estou louco!).

Sorry, Berlin...

P.S.s:

1- O trecho abaixo aborda o dia blecaute e o respectivo surgimento de milhares de DJs, cuja possibilidade de adquirirem os equipamentos necessários foi dada única exclusivamente nesse dia:



2- Este trecho relata a importância do Africa Bambaataa no desenvolvimento do hip hop por meio das batalhas de Djs. Em forma de quadrinhos...



3- Outra pessoa que me ensinou a viver numa cidade grande foi o Lou Reed.

Seus dois relatos sobre sua relação com NY, contido no filme Sem Fôlego (Blue in the Face), a infeliz continuação de Cortina de Fumaça (Smoke), me fizeram ver a flor na merda e a merda na flor:





4-Isso não significa que NY não seja uma puta cidade.

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