domingo, 16 de agosto de 2009

Novo disco do Yo La Tengo (Popular Songs) e uma entrevista exclusiva com Ira Kaplan


Nada.

É isso o que se deve esperar dos discos do Yo La Tengo.

Cada álbum lançado desde May I Sing With Me (1992) - quando o baixista James McNew passou a fazer parte da formação atual - é um sopro inesperado de criatividade, honestidade e inovação. Em resumo, o YLT está sempre um passo à frente do que vem sendo feito.

Com o novo disco do trio, Popular Songs, cujo lançamento está previsto para o dia 8 de setembro, mas já pode ser encontrado em torrents, não é diferente.

Formado em 1984 em Hoboken, pequeno distrito de New Jersey, o Yo La Tengo transita sem dificuldades entre o melancólico, o psicodélico, o shoegaze (ver PS 5), o folk, o free jazz, o downbeat, surf music e, obviamente, o rock. Tudo isso coroado por longas sessões de Jam.

Em Popular Songs, produzido pelo próprio grupo em parceria com Roger Moutenot e gravado em Nashville, a capital do country, percebe-se uma continuidade do aprofundamento da vertente mais experimental do soul e do funk - processo iniciado no disco anterior, o elogiado I Am Not Afraid of You and I Will Beat Your Ass.

Isso não quer dizer que a fase mais rockeira do grupo, entre 1986 a 1992, não esteja presente no disco. Neste ponto, o paralelo entre o Yo La Tengo e o Velvet Underground é quase inevitável.

Todavia, a comparação se deve mais ao “nível ótimo” de vanguardismo alcançado pelos dois grupos e menos pela simples correlação direta da influência musical. Em outras palavras, este vanguardismo não consiste no novo pelo novo, o que acabaria sendo chato, pretensioso e, principalmente, estéril.

Exemplificando: se o Velvet Underground fazia parte do projeto multimídia Exploding Plastic Inevitable, de Andy Warhol, constituído por performances afetadas de sadomasoquismo, projeções experimentais em telões e banda em riste no palco criando um proto-punk sem precedentes, o Yo La Tengo encabeçou o projeto lúdico de Science Is Fiction/The Sounds Of Science (ver o PS 1).


Hoje, no chamado “contexto pós-modernista de aceleração e relativização do tempo”, em que a cada dia surgem “bandas do momento” a serem esquecidas dois anos depois, Yo La Tengo segue desafiando o mainstream, mantendo uma atitude independente (com todas as letras da palavra) e a opção pelo ecletismo.

Por isso, “nada” continua sendo o adjetivo mais adequado para classificar a espera do lançamento de Popular Songs. A fórmula pode ser recorrente, mas a surpresa, como um arranjo de cordas na faixa Here To Fall, é garantida.

Abaixo, segue a entrevista exclusiva feita com Ira Kaplan, líder do grupo, para o Cilada Mental:

(O Yo La Tengo é conhecido pela preferência por títulos diferentes, estranhos e bizarros para seus álbuns. Após o lançamento de I Am Not Afraid of You and I Will Beat Your Ass, o grupo não aguentava mais responder perguntas sobre a escolha do título e declararam em uma entrevista para a Rolling Stone em 2006 que “no momento, nós não estamos respondendo a este tipo de pergunta ).

Cilada Mental: No momento, vocês estão respondendo perguntas sobre o título do novo disco?

Ira Kaplan: Podemos responder a essa pergunta sem revelar o significado do título - que é a resposta da sua pergunta. Nós preferimos não ser específico sobre as coisas, e esta é uma das coisas.

CM: Uma vez você disse “preferimos que o título de um disco nosso tenha vida própria e sugira o que quer que sugira, sem influenciar o nosso direcionamento”. Isso pode ser aplicado a todos os outros títulos dos discos do Yo La Tengo, mas Popular Sons é bem sugestivo. Isso é uma ironia ou vocês realmente buscaram uma sonoridade mais pop?

IK: Não somos grandes fãs de ironias, embora ela tenha o seu lugar na banda. O título é bem sugestivo. Você está sugerindo que I Can Hear the Heart Beating As One não é um título sugestivo?

CM: O que devemos esperar de Popular Songs? O que vocês querem que esperemos?

IK: Não pensamos dessa forma. Esperamos que gostem do disco. Mais do que isso é difícil de dizer.

CM: Na página do YLT no site da Matador há a seguinte frase: “Popular Songs demonstra que tudo o que foi dito no passado sobre o YLT é verdade, só que ainda mais”. O que foi dito no passado? O que você acha do YLT ser constantemente rotulado como um grupo de indie rock/alternativo?

IK: A única vez que nos referimos como uma banda indie, ou alternativa, estávamos sendo preguiçosos. Nos rotulamos como uma banda de rock. Este é o máximo de descrição que usamos. Assim como Barry Manilow, que fazia isso bem antes do YLT, nós escrevemos as músicas (embora Barry Manilow não tenha escrito "I Write The Songs"). Vocês (jornalistas) definem o estilo.

CM: Como é ser constantemente comparado ao Velvet Underground? Esses dias acabaram?

IK: Pensávamos que esses dias tinham acabado, mas aí você faz essa pergunta! Bom, melhor ser comparado com o Velvet Underground do que com os Doobie Brothers.

CM: Como líder de uma banda na ativa desde 1984, que conselho você daria aos novos grupos que surgem todos os dias? Qual o segredo de estarem a tanto tempo juntos?

IK: É difícil dar um conselho a alguém. Nem toda a banda quer ficar junta por tanto tempo como nós ficamos (nós não sabíamos que queríamos até ficarmos). Você não está interessado em saber qual foi o primeiro 45 (disco de vinil, 45 RPM) que eu comprei? Uma dica: Ruby Tuesday (eu já sabia disso. Fonte).

CM: Alguma banda atual que você tem ouvido?

IK: Não estou muito ligado nos grupos de hoje em dia. Eu gosto de Endless Boogie, Black Lips, Vivian Girls, Times New Viking, Kurt Vile, Metal Mountains. São grupos bem recentes.

CM: O que o James Mcnew trouxe para o Yo La Tengo quando entrou na banda em 1992?

IK: Quando o James entrou na banda, nos tornamos uma banda. A gente não sabia que era uma até ele se juntar a nós e percebermos a diferença. Não tanto pelo o que ele trouxe pela música, mas mais pela forma como nós três trabalhos juntos.

CM: Quais são os planos para o YLT este ano? Alguma vinda para o Brasil?

IK: Estamos ansiosos para voltar ao Brasil desde a nossa turnê de 2001. Não há nenhum show aí para 2009, mas estamos esperançosos em relação à 2010.

CM: Como foi tocar no Brasil em 2001 (Maringá, Rio de Janeiro, São Paulo)? O que você achou da música brasileira?

IK: Nós ficamos loucos e maravilhados pelo Brasil. Temos ótimas memórias da viagem, dentro e fora do palco. Nós temos muitos discos brasileiros nas nossas coleções! Uma das nossas maiores emoções foi dividir o palco com Os Mutantes no festival Pitchfork em Chicago (2006).

CM: (o YLT é “conhecido” por fazer diversos covers. De Beach Boys à Sun Ra) Qual cover que o YLT fez que você mais gosta? Que banda ou artista você gostaria que fizesse um cover do YLT?

IK:Eu acho que eu não consigo nomear um cover favorito. É difícil escolher qualquer coisa como a favorita. Eu gostaria muito de tocar tantos covers com as pessoas que fizeram a música original (“Nuclear War” do Sun Ra, “This Is Where I Belong” do Ray Davies, “You Baby” do Howard Kaylan, “You Tore Me Down” do Cyril Jordan, etc, etc e etc...

CM: (Yo La Tengo e Simspons possuem algumas parcerias. Let´s Save Orlando House, faixa do disco And Then Nothing Turned Itself Inside-Out é o nome de um dos filmes educativos que o personagem Troy McClure “atuou”. Além disso, o criador da série, Matt Groening, é um grande fã do YLT). Para acabar a entrevista, qual é o seu episódio do preferido dos Simpsons?

IK: Como já disse, sou contra nomear favoritos. Deixando isso de lado D'oh-ing in the Wind, por razões óbvias (neste episódio, o YLT transformou a música de entrada dos Simpsons, composta pelo ex-Oingo Boingo Danny Elfman, em uma versão psicodélica), eu fico com A Fish Called Selma.


PSs:

1- Na concepção original do projeto Science Is Fiction/The Sounds Of Science, o Yo La Tengo criaria uma trilha sonora instrumental, ao vivo, para uma série de oito curtas-metragens sobre o fundo do mar, feito pelo diretor surrealista e expressionista pré-Jaques Cousteu, Jean Painleve. Sounds Of Science, o resultado do trabalho, acabou virando o disco mais abstrato e enigmático do grupo.

Os filmes de Painleve projetados em um cinema de São Francisco com o YLT acompanhando ao vivo é um capítulo à parte na história do grupo. O curta sobre a reprodução dos Cavalos Marinhos é uma das coisas mais fantásticas que uma tela de cinema já viu.

Para saber mais, clique aqui.

2- Embora seja cara de pau, realmente não nasci para ser jornalista. Me matei para escrever este texto enquanto o Rob Sheffield (ok, não é qualquer um) escreveu - provavelmente enquanto pulava de pára-quedas - o seguinte review sobre o álbum And Then Nothing Turned Itself Inside-Out (2000) para a Rolling Stone:

“It's a spell of blissful, psychedelic make-out music, what Revolver might have sounded like if the Beatles had tried putting ´Here, There and Everywhere´ and ´Tomorrow Never Knows´ into the same song.”

Como não pensei nisso antes? Que raiva!

3- And Then Nothing Turned Itself Inside-Out (2000) é o meu disco preferido do YLT.

4- A gravadora do grupo, a excelente Matador, disponibilizou em seu site uma faixa do disco novo, além de uma série de videos bem legais. Ironicamente, a música Periodically Double Or Trip exala previsibilidade e um flerte com o estilo açucarado dos grupos pop dos anos 60, como o The Mokeys.

Eu não gostei da música, mas o disco é bom! No próximo post, farei um faixa a faixa (o texto já está pronto. Prometo!)

5- Shoegaze, literalmente, “admiradores de sapatos” - pela forma como os guitarristas tocavam, sempre olhando para o chão - é uma vertente do indie rock criado nos fim anos 80 na Inglaterra cujo foco principal é a guitarra distorcida, suja e alta.

Os expoentes do shoegaze são: My Bloody Valentine, Slowdive, Lush e, no começo da, The Verve.

6- Que discografia você acha que o TV On The Radio revisitou para fazer o ótimo Dear Science (2008)?

8 Não Concordo:

  1. Espetacular a entrevista. Ouvi algumas músicas do disco novo e realmente são tão criativas e surpreendentes quanto as dos velhos tempos. Uma palavra que define o som, a postura e a atitude da banda é mesmo "verdade". Não gosto da resenha da Rolling Stones, esse bla bla bla de jornalista nem sempre reflete a verdade contida na música - é apenas uma habilidade de fazer paralelos. Mas isso é uma coisa de críticos, não entendo muito disso. Entendo de música, isso sim - e, nesse assunto, YLT é uma das bandas que mora dentro do meu seletivo coração. Yeah!
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  2. Também esquecemos de comentar aquela capa ali de cima. Ela é a original? Achei simples e bem legal. Não vejo a hora do lançamento. Vc já viu também um documentário da Matatdor aonde o Ira ensina umas crianças o que é rock? É impagável!
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  3. Os fãs do Yo La Tengo querem muito um show por aqui. Tenho 100% de certeza que ia ser da pesada. E tenho 100% de certeza que eu mandei mal não indo no último, em 2001. Muito mal. Com esse novo deve rolar turnê em 2010 certeza!!!
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  4. Fala para eles, Cilada. Fala para eles! MAnda eles virem!
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  5. Sem essa de "não nasci para isso", Mourailo, está bem legal a entrevista e você visivelmente fez este trampo com muita garra. Isso sempre se lê nas entrelinhas, bem como se leria a preguiça, se fosse o caso.
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  6. Nothing to hide é uma das melhores do YLT, senm dúvida - de toda a história - lembra Sugar Cube na pegada, mas é mais melódica, linda.
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  7. Uma boa pergunta que me surgiu agora: Será que eles são ricos?
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  8. que foda, Mura! Muito legal!
    Yo La Tengo é uma das minhas bandas preferidas, assim como Sonic Youth!
    Também acho q a gente precisava ler mais coisas assim...
    ia ser beeem legal um blog só com entrevistas! mas aí era bom juntar mta gente, já q é dificil conseguir falar com os caras e tals..
    parabéns!
    vou te linkar
    beijos!
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