O objetivo da narrativa não cronológica do filme Amnésia (Memento, 2000) atinge a expectativa do diretor Christopher Nolan ao deixar o espectador tão confuso e angustiado quanto Leonard (Guy Pierce), protagonista principal do filme. Mas vai além.
A peculiar amnésia de Leonard é uma fotografia alegórica da nossa sociedade atual. O que você vestiu ontem? O que você almoçou hoje? O que estava fazendo antes de ler este texto?
Não conseguimos nos lembrar de simples fatos recém-ocorridos por estarmos em um mundo cada vez mais imediatista e orientado mais pela ação do que pela reflexão. No momento em que estamos fazendo algo, já estamos pensando no que faremos depois.
A desconexa fragmentação do tempo de Leonard, que usa seu corpo como um grande post-it, não está tão distante assim da forma como administramos o tempo de nossas vidas.
A seguinte passagem de Zygmunt Bauman, extraída do livro “ModernidadeLíquida”, sintetiza esta discussão: “o que conta é o tempo, mais do que o espaço que lhes toca ocupar; espaço que, afinal, preenchem apenas por um momento”.
O compositor e gênio José Miguel Wisnik aborda esta questão na poética música “O Tempo sem Tempo”:
Vê se encontra um tempo
pra me encontrar sem contratempo
por algum tempo
o tempo dá voltas e curvas
o tempo tem revoltas absurdas
ele é e não é ao mesmo tempo
avenida das flores
e a ferida das dores
e só então
se sopetão
entro e me adentro no tempo e no vento
e abarco e embarco no barco de Ísis e Osíris
sou como a flecha do arco do arco-íris
que despedaça as flores mais coloridas em mil fragmentos
que passa e de graça distribui amores de cristais totais sexuais celestiais
das feridas das queridas despedidas
de quem sentiu todos os momentos
PSs:
1- Abordarei mais este assunto. Agora estou sem tempo de escrever.
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